Pregação e estudos

EMPATIA GERA VIDA

Hebreus 2.14-18

Uma das principais características da pós-modernidade é o individualismo. As pessoas são autocentradas, preocupam-se exclusivamente com seus próprios assuntos, vivem para si e seus interesses e não têm tempo nem disposição para compartilhar, ajudar ou apenas ouvir o outro. O individualismo gera uma distância entre as pessoas, não apenas física, mas emocional também. Essa distância faz com que o indivíduo perca a capacidade de se conectar com outro, de sentir suas dores, entender seu sofrimento e fazer algo em relação a ele. O individualismo leva à completa falta de empatia.

Empatia é a capacidade de se identificar com o outro, de se colocar no lugar dele, de, num bom português, calçar seus sapatos e sentir onde aperta. Quando penso em empatia, logo me vem à mente a pessoa de Jesus. Nunca houve e nunca haverá no mundo pessoa mais empática do que ele. E, se estamos nele, é o seu exemplo que devemos seguir, uma vez que “aquele que afirma que está nele, também deve andar como ele andou” (1Jo 2.6).

O livro de Hebreus foi escrito para judeus que se tornaram cristãos. Eles estavam, possivelmente, passando por perseguições, e pensavam em retornar à religião judaica. O autor, que não é identificado, expõe que Jesus é a revelação perfeita de Deus e que ele é superior a tudo: aos anjos, aos sacerdotes, a Moisés e à antiga aliança. Mas há algo interessante que o escritor de Hebreus deixa muito claro – a humanidade de Jesus. Jesus não é somente Deus, mas também ser humano, como você e eu.

  1. A personificação da empatia

Se empatia é a capacidade de se identificar com o outro e colocar-se no lugar dele, Cristo é a empatia em pessoa, uma vez que nasceu, viveu e morreu como um homem. Uma das doutrinas do cristianismo se trata da união hipostática, que afirma a dupla natureza de Jesus: Deus e homem. Os versículos 14 e 17 do texto em destaque dizem: […] visto que os filhos compartilham de carne e sangue, ele também participou das mesmas coisas […] e […] era necessário que em tudo se tornasse semelhante aos seus irmãos[…]

Jesus viveu como nós. Ele experimentou nossa humanidade, sentiu nossas fraquezas e limitações, bem como as dores, emoções e angústias característica do ser humano. Ele verdadeiramente se colocou no nosso lugar. De acordo com Hebreus, ele fez isso para que, morrendo como homem, pudesse destruir o poder da morte e libertar os escravizados (vv.14,15). Se ele não tivesse sido homem, ele não poderia ter morrido no lugar do homem e pago o preço do pecado que cabia ao homem.

Jesus se colocou no nosso lugar porque ele nos ama. O nosso problema é que não amamos o outro o suficiente para sentir empatia por ele. O nosso amor está voltado para nós mesmo. Não é errado cuidar de si mesmo, preocupar-se consigo e suprir suas próprias necessidades. A questão é viver somente para dentro quando se deveria viver também para fora. Jesus se esvaziou, deixou sua glória, assumiu a forma de servo, fez-se semelhante aos homens e se humilhou (Fp 2.7,8). É esse mesmo sentimento que nós devemos ter, não nos preocupando apenas com o que é nosso, mas também com o que é dos outros (vv.4,5).

Nós nunca conseguiremos compreender 100% as dores, as tristezas e as necessidades das pessoas ao nosso redor, mas podemos nos esforçar para fazer o máximo que conseguirmos. Jesus deu tudo de si para nós. Ele deu sua vida para que nós tivéssemos vida. Quando vamos começar a dar a vida para e pelo outro?

  1. Empatia implica misericórdia

Tornando-se semelhante a seus irmãos, Jesus veio a ser um sumo sacerdote misericordioso (v.17). Quando tomou o nosso lugar e viveu as nossas experiências, ele pôde conhecer as nossas lutas. Conhecendo as nossas lutas, tornou-se capaz de se compadecer delas. Compadecendo-se delas, ele pôde nos ajudar.

Quando nos colocamos no lugar do outro, quando nos dispomos a ouvi-lo e a sentir suas dores, quando nos esforçamos para compreendê-lo, somos tomados por misericórdia. Essa misericórdia comove o nosso coração e nos impulsiona para a ação. A Bíblia diz que nós precisamos nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15), que devemos ser compassivos, misericordiosos e benignos. Enquanto não cultivamos esses sentimentos, não cultivaremos a empatia, e, sem empatia, não podemos aliviar as dores e as cargas dos outros.

  1. Empatia gera vida

De modo geral, o fato de Jesus ter se colocado no nosso lugar trouxe vida, e vida abundante, para nós e para todo aqueles que crerem nele. Mas, de forma particular, ele gerou vida nas incontáveis pessoas com quem conviveu. Os Evangelhos narram inúmeros episódios em que Jesus transformou a vida das pessoas – curando, alimentando, protegendo e até mesmo ressuscitando. Ele transformou a vida daquelas pessoas porque foi capaz de entendê-las, de se identificar com elas.

Quando nós nos colocamos no lugar do outro, quando entendemos suas dores, suas aflições, seu sofrimento, nós também geramos vida, porque a empatia nos conduz à ação e a nossa ação pode mudar completamente a vida de uma pessoa.

A empatia está intimamente ligada ao amor. Se não formos capazes de amar as pessoas com o amor de Deus, jamais nos conectaremos com elas. Sendo assim, precisamos aprender com o nosso amado Mestre a amar verdadeiramente o ser humano a fim de sofrer com ele, mas não apenas isso, a fim de oferecer-lhe alívio para seus sofrimentos e auxílio para suas carências.

Deixo abaixo algumas dicas para cultivar a empatia:

  • Observe ao seu redor. Pare de olhar somente para os seus problemas, para as suas dores, para as suas necessidades. Tire os seus olhos do seu umbigo, levante sua cabeça, contemple Jesus e deixe-o direcionar seus olhos para quem está sofrendo, para quem está precisando de auxílio espiritual, emocional ou físico;
  • Ouça as pessoas. Muitas vezes, elas só querem ser ouvidas sem ser julgadas. Interesse-se genuinamente por suas vidas. Compartilhe momentos com elas. Escute com atenção. Conecte-se com os sentimentos delas;
  • Importe-se, mas importe-se o suficiente para sair da sua zona de conforto e oferecer ajuda. Comoção interna sem ação externa não gera transformação. Nem sempre você poderá atender às necessidades das pessoas, mas empenhe-se em fazer o que puder, para quem puder, quando puder. Use seu tempo, bens e talentos para diminuir o sofrimento do outro. Não seja egoísta. Não pense somente em si. Se Jesus tivesse olhado apenas para si mesmo, nós ainda estaríamos condenados a uma eternidade de morte. Nós temos vida porque ele se importou conosco.

Meu querido irmão, quantas pessoas poderiam ter suas vidas transformadas se nós simplesmente fôssemos mais empáticos? A empatia de Cristo gerou vida em nós. Não sabemos quantas outras vidas podem ser impactadas se nós seguirmos seu exemplo. Empatia gera vida. Vida agora e vida depois. Que o Senhor nos ajude!

“Aonde está o seu amor? Pra onde foi? De onde vem o que você sente por alguém que está a sofrer por não conhecer aquele que pode fazer todas as coisas? Por que esconder a luz de todos os que sofrem na escuridão? Como pode alguém viver com Deus sem amor e sacrifícios? Como se acostumar com a dor e a miséria sem se comover? Como admitir viver pra si e dizer ‘Não tenho tempo pra mais nada?’” (Lorena Chaves)

Vilmara Lima

Vilmara Lima

 29, maranhense, membro da PIB do Leblon, formada em Letras e Missiologia, assistente de redação na UFMBB.