Pregação e estudos

Repartir Gera a Vida

Extraído do cap. 7 do livro “Quando Pouco é o Bastante”

Texto Base: João 6.11

Então Jesus tomou os pães, deu graças e os repartiu entre os que estavam assentados, tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes.

Toda vez que Jesus dá graças, ele reparte. Repartir exige uma consciência transformada pela graça, pois apenas aquele que entende que quem provê é Deus, é capaz de repartir. Mas, o que de fato significa repartir?

Oriunda do latim partĭo, repartir significa distribuir, partilhar e compartir. A palavra repartir divide a mesma origem latina das palavras compartilhar, partir e partilhar… palavras que são praticamente sinônimos de repartir. No entanto, a palavra parto também vem da raiz latina partĭo, algo que a princípio parece desconexo, mas que quando nos debruçamos sobre o profundo significado de repartir, faz total sentido.

O parto é o momento mais íntimo, mais esperado de uma família: é quando uma nova vida é gerada. Ao mesmo tempo, é o momento em que duas outras vidas são transformadas. Quando uma criança nasce, uma mulher se transforma mãe e um homem se transforma pai. Conheço muitas mães que hoje agradecem aos seus filhos por terem as introduzido às suas versões maternas, versões de mulheres que não se conheciam mães até repartirem sua vida com alguém e gerarem outra: a de um bebê.

Quando entendemos o parto como uma forma de compartilhar, entendemos o porquê este substantivo divide sua etimologia com o verbo repartir. Repartir também gera vida, pois quando repartimos, abençoamos a vida de nossos irmãos, geramos laços e construímos relacionamentos. Não é à toa que as relações mais profundas são construídas em volta da mesa, quando repartimos o pão (refeição). E não é à toa que quando Jesus opera o milagre da multiplicação, ele também promove o encontro fazendo com que a multidão se sente ao redor da mesa. Por mais que não houvesse um móvel físico com quatro pés, quando Jesus ordena que mais de cinco mil pessoas sentassem em grupos de cinquenta, além de facilitar a distribuição dos pães, Jesus oferece a oportunidade de uma multidão investir na relação. Jesus ensina que repartir o pão só é possível quando eu reparto a vida com meus irmãos, pois quando repartimos o pão, nosso espírito também se enche.

Agora que entendemos o profundo significado de repartir, nos debruçaremos sobre João 6:11 para compreender o que Jesus ensina à multidão e a nós.

Então Jesus tomou os pães, deu graças e o repartiu entre os que estavam assentados, tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes. Jo 6:11 (grifos da autora)

Quando estava no colegial, meu professor de literatura me ensinou a sempre questionar a escolha das palavras feita pelos autores, e aqui não podemos deixar de fazer diferente. O relato que João nos traz à respeito da repartição, e não da divisão, dos pães e peixes, é de suma importância para compreendermos a essência do milagre que Jesus opera. Jesus não divide os pães e peixes porque, para isso, teria que entregar partes iguais para todos os presentes — algo que para Ele seria impossível pois exigiria que não se atentasse e não se sensibilizasse à necessidade do outro. Deixe-me explicar.

Dividir significa entregar partes iguais. Significa desprezar as necessidades distintas de cada um e utilizar a mesma medida para todos. Já o verbo repartir significa entregar o quanto cada um precisa, e para tanto, exige sensibilidade, pois repartir tem a ver com a graça que excede qualquer medida.

A parábola do filho pródigo nos ensina exatamente esta distinção. O texto nos conta que certo dia, o filho mais novo pediu ao seu pai sua parte da herança pois desejava sair de casa. Imagino que, após esse pedido, este filho tenha se reunido com seu irmão mais velho para juntos avaliarem o valor das propriedades, dos animais e das demais riquezas que seu pai tinha. Após somarem tudo, dividiram o valor por dois, de modo que cada um ficou com cinquenta por cento. Para ambos, algo estava muito claro: haviam dividido a herança do pai.  Mas para o pai, ele havia repartido a herança entre seus filhos. Vejamos Lucas 15:11.

“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao seu pai: ‘Pai, quero a minha parte da herança’. Assim, ele repartiu sua propriedade entre eles. (grifos da autora)

Os filhos só notaram essa diferença quando o irmão mais novo voltou para casa. Após desperdiçar toda sua parte da herança, o filho mais novo, humilhado e empobrecido retorna ao pai pedindo que o tratasse como um dos empregados em troca de um teto e algo para comer. No entanto, ele é surpreendido com a consciência graciosa do pai, que desde lá trás já havia compreendido a diferença entre dividir e repartir. Ao chegar em casa, seu pai o recebe repartindo o que tem de melhor: um anel de honra, calçados, um novilho gordo e principalmente a sua vida e o seu amor gracioso.

Perceba que a atitude de quem reparte é diferente da atitude de quem divide. O irmão mais velho, não compreendendo que o pai havia repartido sua herança, se ira ao vê-lo entregando uma medida diferente ao seu irmão. Enquanto o pai, com sua consciência transformada se regozija ao entregar aos seus filhos o quanto cada um precisava.

No milagre da multiplicação, Jesus não divide os pães e os peixes. Jesus os reparte, pois Jesus entrega o quanto cada um precisa. O versículo onze do capítulo seis de João nos demonstra isso, pois todos os que comeram, comeram tanto quanto queriam.

Repartir exige maturidade e sensibilidade. Exige que nossa consciência, transformada pela graça, perceba o quanto devemos entregar para cada um.

Quando Jesus opera o milagre da multiplicação, vemos essa transformação de consciência acontecer com a multidão quando descobrimos, em João 6:12, que após todos ficarem satisfeitos, ainda restaram doze cestos cheios de pedaços — informação que não pode ser um mero detalhe, pois é relatada pelos quatro evangelistas.

O fato que sobrou doze cestos com pedaços de pão significa que todos repartiram o pão. Todos tiveram sua consciência transformada em prol do outro, pois partiram o pão para que todos pudessem comer.

Logo a frente no capítulo seis de João, Jesus se apresenta à multidão como o Pão da Vida, que sacia a fome daqueles que o buscam.

Então Jesus declarou: “Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.” João 6:35

Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”. João 6:51

Cristo é o pão da vida que se entrega e se reparte por nós e para nós. Ele é o pão esmagado por causa de nossas iniquidades, o pão repartido para que tivéssemos paz, a carne ferida e levada ao matadouro para que fôssemos curados (vide Isaías 53:5). Cristo reparte o seu corpo para que pudéssemos ter vida, e vida em abundância (João 10:10), e a vida é compartilhada através de sacrifício, através do encontro… através de momentos em volta da mesa.

Observe que Jesus, em seu momento de maior intimidade com os discípulos, senta ao redor da mesa para cear (Lucas 22:17). Ali, ele toma o pão, dá graças e o parte. Assim o faz pois reconhece Deus Pai como o provedor, e então, reparte o pão com os doze para que fossem satisfeitos. Na ceia, Cristo ensina que o pão repartido é o seu corpo, dado em favor de nós para que tenhamos vida.

Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim”. Lucas 22:19

Jesus nos ensina a repartir o pão nos convidando a assumir uma responsabilidade: repartir em memória de Cristo. Repartir o pão com alguém vai muito além de suprir uma necessidade física. Significa suprir as necessidades do espírito, e por isso, exige sensibilidade. Apenas quando estamos sensíveis ao Espírito Santo, somos capazes de entregar todas as partes que o nosso próximo precisa, pois a sensibilidade promove o encontro que gera vida.

Apenas quem compreende a graça como responsabilidade e não como privilégio é capaz de repartir. Quando lemos sobre a Igreja Primitiva, em Atos, vemos como este entendimento embasava todas as suas ações, pois, como o texto diz, eles tinham tudo em comum e repartiam entre eles de acordo com as necessidades de cada um.

Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua, coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham… Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um. Atos 4:32-35 (grifos da autora)

Além da consciência transformada e da maturidade que falamos, repartir também exige sacrifício. O pensamento de quem entende a graça como responsabilidade deve ser “repartir sempre, comer às vezes”, pois aquele que reparte já é satisfeito em Cristo. Quem reparte o pão não fica ansioso para saber se sobrará um pedaço para ele comer no final, pois antes de repartir ele reconhece que foi Deus quem deu — ele dá graças. Ainda, quem reparte o pão, assim o faz pois já encontrou a plenitude em Deus, de modo que o seu espírito já está satisfeito. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão fartos” (Mateus 5:6). Felizes são aqueles que repartem, pois buscam o reino de Deus e a sua justiça, e por isso, são satisfeitos.

Todas as vezes que Jesus reparte o pão, ele dá graças e distribui. Diferente de Eva, que quando apanha o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, primeiro come, e depois entrega ao seu esposo. Nenhum dos quatro evangelistas descrevem se Jesus comeu ou não os pães e peixes depois que os repartiu, pois imagino que esse não era o fato mais importante. Fundamental, para todos nós, é vê-lo repartindo porque isso gera responsabilidade e nos faz priorizar o outro na mesa, pois uma vez que damos graças, reconhecemos que o que temos não é nosso, porquanto a graça não é privilégio, é compromisso com o próximo.

Jesus Cristo tinha essa convicção tão clara que durante todo o seu ministério, viveu uma vida de sacrifício em prol do outro. Quando Jesus nasce, ele dorme em uma manjedoura para repartir o conforto de um hotel com outra família que também viajara de longe até Belém. Quando acorda em meio a tempestade, Jesus abre mão de seu descanso para tranquilizar os discípulos e ensiná-los a terem fé. Quando desvia da rota para Galiléia e passa por Sicar para encontrar a mulher samaritana, Jesus deixa de matar a sua própria sede para saciar a sede espiritual dela, oferecendo-lhe a água viva.

“quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna” (João 4:14)

Quando multiplica os pães e peixes, ele deixa de comer o primeiro pedaço para que mais de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, comessem primeiro. E no fim do seu ministério, o ápice desta vida sacrificial é a Cruz do Calvário, quando entrega a sua vida para reparti-la com todos nós. Para Jesus, se sacrificar para entregar aos seus irmãos o quanto precisam não é um problema, é graça!

Por fim, repartir gera identidade. Quem reparte o pão reconhece sua identidade como filho de Deus. Apenas aqueles que têm a convicção do cuidado paterno e do sustento proveniente de Deus conseguem repartir, mesmo sabendo que talvez não sobrará pedaços para comerem. Quando repartimos, nos esvaziamos de nós mesmos e declaramos que o nosso sustento vem do alto, e não do esforço de nossos braços.

Diferente da multidão dos hebreus, que tentavam estocar o maná para o dia seguinte com medo que Deus esquecesse de lhes enviar mais pão, quem reparte sem medo de faltar pedaços para ele mesmo comer, tem sua identidade firmada em Cristo, pois entende que nEle já somos satisfeitos!

Repartir o pão é repartir a vida com nossos irmãos. Após ressuscitar, Jesus se encontra com os discípulos no caminho de Emaús, quando seus olhos ficam impedidos de reconhecer o mestre (vide Lucas 24:31-35). No cair da noite, os discípulos o convidam para passar a noite com eles, e percebem que aquele homem era Cristo Jesus quando o vêem repartindo o pão, após ter dado graças ao redor da mesa. Jesus é reconhecido quando reparte o pão.

Como imitadores de Cristo, devemos repartir – e não dividir – o pão, para que Cristo seja revelado e glorificado através de nossas vidas. Repartir o pão vai além de entregar ao próximo o que temos, repartir como Cristo repartiu significa entregar as nossas vidas em prol do outro. Não é sobre o que temos ou o quanto temos para entregar, mas sim sobre o que somos.

E veja, mesmo assim, Jesus não depende do que somos para suprir às necessidades dos nosso irmãos. No entanto, ele gentilmente nos convida a participar deste processo. Como corpo de Cristo presente na terra, temos a graça de carregar sua identidade conosco, e portanto, temos a responsabilidade de repartir. A beleza do Evangelho está no compromisso que ele nos gera para com os nossos irmãos, e um evangelho que não nos convide à repartir as nossas vidas com o próximo não é Evangelho, é religião. Jesus tinha essa convicção tão clara que ele não pensou duas vezes ao se oferecer e entregar a sua vida em favor da nossa. A maior repartição que Cristo nos ofereceu foi de entregar a sua vida na Cruz do Calvário. Minha oração e o meu desejo é que possamos aprender a repartir como Jesus ensinou, e que possamos estar sensíveis aos encontros que Ele nos promove ao redor da mesa.

Flávia Bedicks

Flávia Bedicks

Gestora de Ministérios da Igreja Doca Doze, em Santo André, Flávia é formada em economia e atua com políticas públicas focadas em tecnologia e empregabilidade jovem.